Cristiane Poleto
Brasília DF - 22/07/2018

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Brasília: A metrópole do Planalto

29/06/09

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Perto de completar 50 anos, Brasília desponta como o terceiro mercado consumidor do país - e, aos poucos, sofistica sua economia e começa a reduzir a dependência do poder público

Para muitos brasileiros, Brasília é sinonimo de corrupcao, burocracia e provincianismo. Se comparada a outras capitais, como Londres, Paris ou Pequim - que ao longo dos séculos se forjaram como centros da indústria, do comércio e de serviços -, a brasileira empalidece. A exemplo de Washington, fundada em 1790 para sediar o governo americano, Brasília nasceu com a vocação de manter uma ligacão umbilical com o Estado. Hoje, 55% do produto interno bruto do Distrito Federal, composto de Bras&ília e suas 20 cidades-satélites, provém da administração pública. Aos poucos, porém, algo de novo desponta no Planalto Central - e começa a distanciar a capital federal da imagem de um mercado ainda acanhado, definido por seus detratores como "um quadradinho no meio do mapa de Goiás". Graças à localização privilegiada, Brasília já transborda sua função administrativa e cresce como um centro comercial e de integração econômica das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste - as novas fronteiras do desenvolvimento econômico - com o Sudeste e o Sul.




O dinamismo é evidente no consumo. Segundo levantamento feito para EXAME pela consultoria Geografia de Mercado, o Distrito Federal já é o terceiro polo de compras do país, atrás apenas dos municípios de São Paulo e do Rio Janeiro. "Brasília se consolida como um grande mercado e oferece uma gama de oportunidades aos setores de varejo e serviços focados nas classes A e B", diz o economista Tadeu Masano, dono da Geografia de Mercado.


 


Plantada há quase 50 anos sobre o solo ácido do cerrado, mas irrigada com as polpudas verbas da União, Brasília tem indicadores econômicos de padrão europeu. Contando com 2,6 milhões de habitantes, detém o maior PIB per capita das metrópoles brasileiras: 37 600 reais, mais que o triplo da média nacional - a média de São Paulo é inferior a 26 000 reais por habitante e a do Rio de Janeiro não chega a 21 000. De acordo com a consultoria de marketing Target, as classes A e B compõem 47% dos domicílios brasilienses - a média brasileira de lares nessa faixa de renda é de 32%. Também pesa a favor, claro, o fato de a média de salários dos servidores públicos instalados na capital ser bem superior à do setor privado. Brasília reúne a elite econômica da burocracia estatal - uma população cada vez mais interessada em adquirir produtos e serviços sofisticados. No Poder Judiciário, a média salarial é de 15 300 reais, no Legislativo, de 13 300, e no Executivo, de 4 300. Nas 150 maiores empresas privadas brasileiras, a média salarial é de 2 900 reais. Os salários pagos a alguns integrantes do aparato do Estado podem não ser o melhor destino do dinheiro do contribuinte. Mas, na prática, contribuem para fazer de Brasília um mercado especial. E há ainda o movimento gerado por cerca de 200 embaixadas, consulados e escritórios de 20 órgãos multilaterais com representação no Brasil.


Onde há mercado, há empresas.

Nos últimos cinco anos, estima-se que setores como o varejo e a construção civil cresceram 50% no Distrito Federal, atraindo companhias de outras regiões e empreendedores locais. Um dos maiores empreendimentos é o shopping Iguatemi, em construção no Lago Norte, um investimento de 180 milhões de reais realizado em parceria pelos grupos Iguatemi e Paulo Octavio. Este, que leva o nome do dono, o vice-governador de Brasília, é a maior empresa local de engenharia, incorporação e corretagem de imóveis. Previsto para ser inaugurado no primeiro semestre de 2010, o Iguatemi terá 160 lojas, incluindo uma filial da francesa Louis Vuitton, especializada em artigos de luxo. "Estamos certos do sucesso da loja", diz Marc Sjostedt, diretor-geral da Vuitton no Brasil. "Hoje, nas nossas filiais do Rio e de São Paulo, já temos muitos clientes brasilienses."

Antes de investir em Brasília, tanto a Louis Vuitton como o Iguatemi pesquisaram profundamente o mercado. "Começamos a considerar a construção do shopping em 2000", diz Carlos Jereissati Filho, presidente do Iguatemi. "Resolvemos investir com base no poder aquisitivo e na localização da cidade, que atrai clientes do Norte, do Nordeste e do Centro-Oeste, gente que prefere comprar em Brasília a ir até o Rio ou São Paulo." Desde 2008, num movimento defensivo, o rival ParkShopping, do grupo Multiplan, que atende os consumidores da Asa Sul, no outro extremo da capital, investe 65 milhões de reais em sua expansão. A primeira etapa da nova ala já abriga marcas como Hugo Boss, Lacoste e Mont Blanc.


Além da alta renda, outro trunfo brasiliense é a estabilidade no emprego do funcionalismo, fator que tem poupado a economia local dos efeitos da desaceleração econômica dos últimos meses. Em grande parte, os 190 000 servidores civis e militares (entre ativos, aposentados e pensionistas) que vivem no Distrito Federal são os responsáveis pela explosão imobiliária que movimenta o Plano Piloto, na região central de Brasília, e as cidades-satélites de alta renda, como Guará e Águas Claras. "Mais que brasileiro, Deus é brasiliense, já que 70% de nossos clientes são funcionários públicos das classes A e B", diz Leonel Alves, diretor da corretora de imóveis Lopes Royal. Fundada há 16 anos com uma equipe inicial de 20 funcionários, em 2008 a Royal associou-se à paulistana Lopes, maior corretora do país. A empresa resultante conta hoje com 500 profissionais. No ano passado, suas vendas alcançaram 750 milhões de reais, e neste ano, até o final de maio, a Lopes Royal vendeu 670 milhões de reais em imóveis. Na área do Plano Piloto, tombada pelo Patrimônio Histórico e onde os prédios residenciais têm no máximo seis andares, há dez empreendimentos em construção, cujo preço do metro quadrado alcança 7 000 reais, comparável ao de bairros nobres de São Paulo. Em Águas Claras, a 20 quilômetros do Plano Piloto, 120 prédios de até 30 andares brotam do chão, com apartamentos na faixa de 3 000 reais o metro quadrado. Vista do Plano Piloto, Águas Claras parece uma miragem paulistana em pleno Planalto Central.




Ainda que num ritmo menos aquecido, a construção de escritórios também avança, com seis grandes lançamentos em fase de incorporação, construção ou recentemente concluídos. O mais novo é o Parque Cidade Corporate, com três torres e investimento de 200 milhões de reais da Brazilian Capital, do grupo BFRE. Os inquilinos serão escritórios de advocacia e de lobby, organizações internacionais e, é claro, bancos oficiais e órgãos que já não cabem na Esplanada. A Caixa Econômica Federal negocia a locação de uma torre. "A expansão da máquina pública e o perfil dos aluguéis, de longo prazo, devem trazer um bom retorno", diz Rossano Nonino, diretor da Brazilian Capital.


Observada pelas lentes da história, a criação de Brasília é um dos fenômenos urbanos mais significativos da virada do milênio. Desde sua fundação, em 1960, enquanto a população brasileira cresceu 2,7 vezes, a brasiliense multiplicou-se por 17. Graças à localização, escolhida a dedo pelo ex-presidente Juscelino Kubitschek, Brasília começa a se projetar como um grande hub no centro do mapa do país, com um entroncamento de oito rodovias. Ambicioso, um plano estratégico do governo do Distrito Federal pretende tirar vantagem disso, com a construção de projetos como um terminal aéreo de cargas, orçado em meio bilhão de reais, a ser ligado à ferrovia Norte-Sul, cujo trecho sul deverá passar a 160 quilômetros de Brasília. Por outro lado, a localização e a prosperidade brasilienses trazem consigo o risco do crescimento descontrolado. Até hoje, a maioria dos migrantes pobres que vieram para ficar na capital tem prosperado. Os domicílios das classes D e E são apenas 13,7% da população local, bem abaixo da média nacional de 20%. E a classe C brasiliense representa 40% dos domicílios, ante a média nacional de 48%, de acordo com a consultoria Target. Segundo estudiosos como o economista Edward Glaeser, especialista em economia urbana da Universidade Harvard, o grande desafio de Brasília é evitar o inchaço populacional, gerando uma classe média empreendedora que garanta à capital alguma independência econômica da máquina pública e do funcionalismo. Para isso, a qualidade do ensino é fundamental. Nesse quesito, Brasília tem se saído bem, com uma centena de instituições de ensino superior e 200 000 universitários. Graças a organizações como a Universidade de Brasília e as filiais da FGV e do Ibmec, a cidade atrai estudantes de Goiás e de outros estados.


A qualificação da mão de obra tem sido fator determinante para o crescimento da indústria. "Nos últimos cinco anos, o peso de nosso setor industrial passou de 7% do PIB para mais de 10%", diz Antônio Rocha, presidente da Federação das Indústrias do Distrito Federal. "Estamos nos tornando competitivos em setores como tecnologia da informação e produção de fármacos." Na área de TI, o sindicato das indústrias da informação do Distrito Federal já conta com mais de 180 empresas filiadas. Pelo menos duas delas, a Politec e a CTIS, têm peso nacional. No setor farmacêutico, a pioneira foi a União Química, fabricante de genéricos que, em 2006, se instalou no distrito industrial JK, na cidade do Gama. Com novo investimento de 150 milhões de reais, a União se equipa para, em 2012, ser o único fabricante de insulina do país, gerando 1 350 empregos diretos. Em parte, o crescimento industrial resulta de uma agressiva política fiscal. "Concedemos incentivos de até 80% no valor do terreno e de até 70% no ICMS", diz o vice-governador Paulo Octavio. Segundo ele, essa política já atraiu mais de 5 000 empresas, a maioria de pequeno porte, mas também uma unidade de produção de vergalhões da Gerdau e uma futura central de atendimento da operadora Oi.


O refinamento crescente do mercado local faz com que Brasília cresça também em serviços como restaurantes e hotéis. Nos últimos cinco anos, redes hoteleiras, como Meliá e Mercure, ergueram unidades na cidade. Novos restaurantes convivem hoje com o decano Piantella, célebre pelo cordeiro com ervas e pelos conchavos políticos alinhavados em suas mesas. Hoje, a cidade tem pelo menos uma dezena de chefs de primeira linha, como a brasiliense Mara Alcamin, de 42 anos. Criada na pobreza, numa barraca de lona, Mara aproveitou sua aptidão para a cozinha e iniciou um negócio que se expandiu com a cidade. "Quando comecei, os clientes eram tão minguados que eu fazia de bufê de casamento a velório", diz ela. "Mas nos últimos cinco anos o movimento não para de crescer e eu reinvisto tudo o que ganho nos restaurantes." À frente de três endereços - o sofisticado Zuu, o moderninho Universal e a lanchonete e empório Quitinete -, Mara emprega formalmente 220 funcionários e fatura cerca de 15 milhões de reais por ano. Um jantar completo no Zuu sai a 200 reais por cabeça, sem bebidas. Segundo o cientista político Murillo de Aragão, carioca que adotou Brasília nos anos 80, o sucesso de Mara é uma prova de que Brasília já ostenta um verniz mais cosmopolita. "À medida que o Brasil ganha peso global, Brasília se torna um influente centro de poder do hemisfério sul", afirma Aragão. E o melhor - um local onde o setor privado começa a conquistar espaço numa economia tradicionalmente voltada para o mundo dos gabinetes.


Fonte: Revista Exame - dia 26/06/2009

 

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