Cristiane Poleto
Brasília DF - 19/11/2018

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Analistas: alta de preços de imóveis não significa bolha

18/07/11

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São Paulo - O aumento no valor dos imóveis em algumas regiões tem gerado receios de que o Brasil esteja passando pelo fenômeno da bolha imobiliária, ou seja, de que esteja havendo uma valorização exagerada, acima do equilíbrio de mercado e, em algum momento, os preços voltarão aos patamares anteriores abruptamente - como ocorreu em 2008 nos Estados Unidos. Na cidade de São Paulo, por exemplo, o preço de um imóvel ficou em média 101% mais caro de janeiro de 2008 a junho deste ano, segundo pesquisa FipeZap. No entanto, analistas não apostam em um fenômeno semelhante no País - mesmo se houver um reajuste, os "feridos" não serão tantos, afirmam.


De acordo com o economista-chefe do Sindicato da Habitação de São Paulo (Secovi-SP), Celso Petrucci, o que diferencia a situação brasileira das "bolhas" que já estouraram é a ausência de um sentimento de que haverá valorização irrestrita das propriedades. "É preciso existir investidores e compradores dispostos a pagar qualquer preço pelo imóvel, porque sabem que vão subir", disse. Para ele, o Brasil já está em um processo de desaceleração do ritmo de alta dos preços, e o crescimento estará mais ligado aos índices de inflação. "Esse ano teremos uma valorização imobiliária em torno de 5% a 10%, o que mostra que o País continua crescendo, que continua gerando emprego, e não enfrenta uma bolha imobiliária", afirmou.


Para o professor da Fundação Getulio Vargas (FGV) Alberto Azjental, os preços já estão acima do valor de equilíbrio, mas não o suficiente para uma bolha. "Descontada a inflação, há um crescimento de 25% nos preços de venda dos imóveis no Estado de São Paulo, entre 2005 e 2011", lembrou. Por conta desse percentual, o professor acredita que os preços voltarão ao patamar normal aos poucos, corrigidos pela inflação, porém, não sem causar alguns prejuízos. "Não terão tantos mortos e feridos, mais para frente haverá um pouco de inadimplência, mas não estamos em uma bolha", disse.


Azjental destaca ainda sinais de diminuição da atividade econômica. "Esse ano, já se percebe alguns fenômenos de saturação, como o começo de inadimplência em eletrodomésticos, alguns processos de demissão. Aquela taxa de crescimento (da economia) está se exaurindo um pouco, está entrando em uma inflexão. O mercado vai corrigir os preços (dos imóveis) com a inflação a partir desse ano e ao longo de dois anos", afirmou.


O aquecimento do mercado imobiliário no Brasil se sustenta sobretudo por ter ocorrido após a ascensão da classe média e da recuperação do crédito. "De 2005 para cá, há um alongamento de prazo (de financiamento) de oito para 25 anos, que é o normal no mundo, além de aumento de massa salarial e mais pessoas empregadas, que geram uma demanda reprimida por imóveis", afirma o professor da FGV. Ele acrescenta ainda que algumas regiões metropolitanas, como a Grande São Paulo, passam por uma escassez de terreno, que envolve problemas ligados ao transporte público e acesso, o que ajuda a elevar os preços.


O crédito imobiliário atingiu 4% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2010, segundo dados da Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip) e, embora existam melhores condições e mais pessoas dispostas a adquirir imóveis e, por outro lado, a oferta de novos imóveis não cresça na mesma proporção (configurando-se um descompasso entre oferta e demanda), Petrucci não crê que o País esteja passando por uma bolha, por contar com um setor financeiro exemplar em relação a outros países, e que não fará operações de risco semelhantes às observadas nos EUA.


"Não existe a menor chance de termos no Brasil o mesmo problema que no sistema financeiro americano, porque o sistema financeiro nacional é fortemente regulado e fiscalizado. O crédito imobiliário está muito equilibrado e o índice de inadimplência muito baixo", disse, lembrando que a inadimplência alcançou 6,76% dos contratos de financiamento imobiliário em fevereiro deste ano, segundo dados do Banco Central (BC).


Bolhas no mundo


As bolhas imobiliárias não são um fenômeno recente e tampouco isolado, o Japão enfrentou o problema em meio a uma crise financeira na década de 1980. A Espanha viu o preço de seus imóveis despencarem em 2008 após anos de valorização. Atualmente, especula-se que a China esteja passando por um momento de valorização excessiva dos imóveis. Com grandes reflexos na economia global, os EUA também passaram recentemente por um fenômeno do tipo.


Segundo o professor da FGV, a crise nos EUA foi causada por vários fatores relacionados, como o aumento do financiamento para a categoria subprime, ou seja, mais pessoas consideradas "de risco" obtiveram financiamento imobiliário; a crença de que os imóveis sempre se valorizam num processo irreversível; os juros baixos que contribuíram para a diminuição dos valores financiados e um ambiente de otimismo; e o aumento da securitização, que ocorre quando os bancos transformam uma dívida em um novo empréstimo, aumentando assim seu poder de crédito.


Aliado a esse cenário, o Federal Reserve (FED, banco central americano) decidiu aumentar a taxa de juros rapidamente e quebrou o ritmo que vinha ocorrendo até então. "Quando o FED subiu (a taxa básica de juros) de 1% para 5% e quebrou todo o ciclo virtuoso, o subprime, que paga a taxas variáveis, não consegue mais pagar. Ele devolve o imóvel, que cai de valor, tornando o financiamento maior do que vale o imóvel. Formou-se um ciclo vicioso. Isso é uma bolha, você não tem sustentação", acrescentou.


 


Filipe Gonçalves

Fonte: http://www.jb.com.br

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